segunda-feira, 31 de julho de 2017

Curiosidades: "A Casa da Mãe Joana!"



Casa da mãe Joana é uma expressão popular que significa "o lugar onde todos mandam", sem organização, onde cada um faz o que quer. A expressão "casa da mãe Joana"  teve origem no século XIV, segundo Câmara Cascudo (historiador, antropólogo, advogado e jornalista) foi criada graças a Joana I , rainha de Nápolis e condessa de Provença, que viveu entre 1326 e 1382. Teve uma vida conturbada e em 1346 mudou de residência para Avignon, na França. Alguns autores afirmam que esta mudança ocorreu porque Joana se envolveu em uma conspiração em Nápoles que resultou na morte de seu marido André, enquanto outros indicam que Joana foi exilada pela Igreja por viver de uma forma sem regras e permissiva. Em 1347, quando tinha 21 anos, Joana normatizou os bordéis da cidade onde vivia refugiada, criou certas regras para impedir que alguns frequentadores agredissem as prostitutas e saíssem sem pagar. Para as meretrizes, Joana era como uma mãe e por isso os bordéis eram conhecidos como "casa da mãe Joana". Em Portugal, a expressão paço-da-mãe-joana era um sinônimo de prostíbulo. A expressou chegou ao Brasil e como "paço" não é uma palavra comum, foi mudado para "casa", e a expressão "casa de mãe Joana"  passou a significar o lugar onde cada pessoa faz o que bem entende, sem respeitar nenhum tipo de normas.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A Ditadura Militar no Brasil (1964 - 1985)





A crise política se arrastava desde a renúncia de Jânio Quadros em 1961. O vice de Jânio era João Goulart, que assumiu a presidência num clima político adverso. O governo de João Goulart (1961-1964) foi marcado pela abertura às organizações sociais. Estudantes, organizações populares e trabalhadores ganharam espaço, causando a preocupação das classes conservadoras como, por exemplo, os empresários, banqueiros, Igreja Católica, militares e classe média. Todos temiam uma guinada do Brasil para o lado socialista. Vale lembrar, que neste período, o mundo vivia o auge da Guerra Fria. Este estilo populista e de esquerda, chegou a gerar até mesmo preocupação nos EUA, que junto com as classes conservadoras brasileiras, temiam um golpe comunista. Os partidos de oposição, como a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD), acusavam Jango de estar planejando um golpe de esquerda e de ser o responsável pela carestia e pelo desabastecimento que o Brasil enfrentava.
            No dia 13 de março de 1964, João Goulart realiza um grande comício na Central do Brasil (Rio de Janeiro), onde defende as Reformas de Base. Neste plano, Jango prometia mudanças radicais na estrutura agrária, econômica e educacional do país. Seis dias depois, em 19 de março, os conservadores organizam uma manifestação contra as intenções de João Goulart. Foi a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu milhares de pessoas pelas ruas do centro da cidade de São Paulo. O clima de crise política e as tensões sociais aumentavam a cada dia. No dia 31 de março de 1964, tropas de Minas Gerais e São Paulo saem às ruas. Para evitar uma guerra civil, Jango deixa o país refugiando-se no Uruguai. Os militares tomam o poder. Em 9 de abril, é decretado o Ato Institucional Número 1 (AI-1). Este Ato cassa mandatos políticos de opositores ao regime militar e tira a estabilidade de funcionários públicos.

GOVERNO CASTELLO BRANCO (1964-1967)
Castello Branco, general militar, foi eleito pelo Congresso Nacional presidente da República em 15 de abril de 1964. Em seu pronunciamento, declarou defender a democracia, porém ao começar seu governo, assume uma posição autoritária. Estabeleceu eleições indiretas para presidente, além de dissolver os partidos políticos. Vários parlamentares federais e estaduais tiveram seus mandatos cassados, cidadãos tiveram seus direitos políticos e constitucionais cancelados e os sindicatos receberam intervenção do governo militar. Em seu governo, foi instituído o bipartidarismo. Só estava autorizado o funcionamento de dois partidos: Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e a Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Enquanto o primeiro era de oposição, de certa forma controlada, o segundo representava os militares. O governo militar impõe, em janeiro de 1967, uma nova Constituição para o país. Aprovada neste mesmo ano, a Constituição de 1967 confirma e institucionaliza o regime militar e suas formas de atuação.
GOVERNO COSTA E SILVA (1967-1969)
Em 1967, assume a presidência o general Arthur da Costa e Silva, após ser eleito indiretamente pelo Congresso Nacional. Seu governo é marcado por protestos e manifestações sociais. A oposição ao regime militar cresce no país. A UNE (União Nacional dos Estudantes) organiza, no Rio de Janeiro, a Passeata dos Cem Mil. Em Contagem (MG) e Osasco (SP), greves de operários paralisam fábricas em protesto ao regime militar. A guerrilha urbana começa a se organizar. Formada por jovens idealistas de esquerda, assaltam bancos e sequestram embaixadores para obterem fundos para o movimento de oposição armada. No dia 13 de dezembro de 1968, o governo decreta o Ato Institucional Número 5 (AI-5). Este foi o mais duro do governo militar, pois aposentou juízes, cassou mandatos, acabou com as garantias do habeas-corpus e aumentou a repressão militar e policial.

GOVERNO DA JUNTA MILITAR (31/8/1969-30/10/1969)
Doente, Costa e Silva foi substituído por uma junta militar formada pelos ministros Aurélio de Lira Tavares (Exército), Augusto Rademaker (Marinha) e Márcio de Sousa e Melo (Aeronáutica). Dois grupos de esquerda, O MR-8 e a ALN sequestram o embaixador dos EUA Charles Elbrick. Os guerrilheiros exigem a libertação de 15 presos políticos, exigência conseguida com sucesso. Porém, em 18 de setembro, o governo decreta a Lei de Segurança Nacional. Esta lei decretava o exílio e a pena de morte em casos de "guerra psicológica adversa, ou revolucionária, ou subversiva". No final de 1969, o líder da ALN, Carlos Mariguella, foi morto pelas forças de repressão em São Paulo.

GOVERNO MÉDICI (1969-1974)
Em 1969, a Junta Militar escolhe o novo presidente: o general Emílio Garrastazu Médici. Seu governo é considerado o mais duro e repressivo do período, conhecido como "anos de chumbo". A repressão à luta armada cresce e uma severa política de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão artística são censuradas. Muitos professores, políticos, músicos, artistas e escritores são investigados, presos, torturados ou exilados do país. O DOI-Codi (Destacamento de Operações e Informações e ao Centro de Operações de Defesa Interna ) atua como centro de investigação e repressão do governo militar. Ganha força no campo a guerrilha rural, principalmente no Araguaia. A guerrilha do Araguaia é fortemente reprimida pelas forças militares.
 O Milagre Econômico
Na área econômica o país crescia rapidamente. Este período que vai de 1969 a 1973 ficou conhecido com a época do Milagre Econômico. O PIB brasileiro crescia a uma taxa de quase 12% ao ano, enquanto a inflação beirava os 18%. Com investimentos internos e empréstimos do exterior, o país avançou e estruturou uma base de infraestrutura. Todos estes investimentos geraram milhões de empregos pelo país. Algumas obras, consideradas faraônicas, foram executadas, como a Rodovia Transamazônica e a Ponte Rio-Niterói.
Porém, todo esse crescimento teve um custo altíssimo e a conta deveria ser paga no futuro. Os empréstimos estrangeiros geraram uma dívida externa elevada para os padrões econômicos do Brasil.

GOVERNO GEISEL (1974-1979)
Em 1974 assume a presidência o general Ernesto Geisel que começa um lento processo de transição rumo à democracia. Seu governo coincide com o fim do milagre econômico e com a insatisfação popular em altas taxas. A crise do petróleo e a recessão mundial interferem na economia brasileira, no momento em que os créditos e empréstimos internacionais diminuem. Geisel anuncia a abertura política lenta, gradual e segura. A oposição política começa a ganhar espaço. Nas eleições de 1974, o MDB conquista 59% dos votos para o Senado, 48% da Câmara dos Deputados e ganha a prefeitura da maioria das grandes cidades. Os militares de linha dura, não contentes com os caminhos do governo Geisel, começam a promover ataques clandestinos aos membros da esquerda. Em 1975, o jornalista Vladimir Herzog á assassinado nas dependências do DOI-Codi em São Paulo. Em janeiro de 1976, o operário Manuel Fiel Filho aparece morto em situação semelhante. Em 1978, Geisel acaba com o AI-5, restaura o habeas-corpus e abre caminho para a volta da democracia no Brasil.

GOVERNO FIGUEIREDO (1979-1985)
            A vitória do MDB nas eleições em 1978 começa a acelerar o processo de redemocratização. O general João Baptista Figueiredo decreta a Lei da Anistia, concedendo o direito de retorno ao Brasil para os políticos, artistas e demais brasileiros exilados e condenados por crimes políticos. Os militares de linha dura continuam com a repressão clandestina. Cartas-bomba são colocadas em órgãos da imprensa e da OAB (Ordem dos advogados do Brasil). No dia 30 de Abril de 1981, uma bomba explode durante um show no centro de convenções do Rio Centro. O atentado fora provavelmente promovido por militares de linha dura, embora até hoje nada tenha sido provado.
Em 1979, o governo aprova lei que restabelece o pluripartidarismo no país. Os partidos voltam a funcionar dentro da normalidade. A ARENA muda o nome e passa a ser PDS, enquanto o MDB passa a ser PMDB. Outros partidos são criados, como: Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT).

A REDEMOCRATIZAÇÃO E A CAMPANHA PELAS DIRETAS JÁ

Nos últimos anos do governo militar, o Brasil apresenta vários problemas. A inflação é alta e a recessão também. Enquanto isso a oposição ganha terreno com o surgimento de novos partidos e com o fortalecimento dos sindicatos. Em 1984, políticos de oposição, artistas, jogadores de futebol e milhões de brasileiros participam do movimento das Diretas Já. O movimento era favorável à aprovação da Emenda Dante de Oliveira que garantiria eleições diretas para presidente naquele ano. Para a decepção do povo, a emenda não foi aprovada pela Câmara dos Deputados. No dia 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral escolheria o deputado Tancredo Neves, que concorreu com Paulo Maluf, como novo presidente da República. Ele fazia parte da Aliança Democrática – o grupo de oposição formado pelo PMDB e pela Frente Liberal. Era o fim do regime militar. Porém Tancredo Neves fica doente antes de assumir e acaba falecendo. Assume o vice-presidente José Sarney. Em 1988 é aprovada uma nova constituição para o Brasil. A Constituição de 1988 apagou os rastros da ditadura militar e estabeleceu princípios democráticos no país.  



segunda-feira, 17 de julho de 2017

A Revolta dos Perdidos



  A Revolta dos Perdidos foi um conflito que se estendeu entre o final da década de 1970 e o início da década de 1980. No final da década de 1960, formou-se um movimento guerrilheiro na região amazônica brasileira seguindo o traçado do Rio Araguaia. O movimento foi criado pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), uma dissidência armada do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que queria promover uma revolução socialista no Brasil iniciada no campo. Seguindo os exemplos ocorridos na China e em Cuba, os militantes da revolução estavam dispostos a combater as Forças Armadas brasileiras pelo ideal defendido. O confronto tornou-se direto em 1972, colocando em choque os 80 militantes da revolução e o exército nacional. O evento ficou conhecido como Guerrilha do Araguaia e terminou com a vitória das forças federais, restando menos de 20 revolucionários vivos. Entre os mortos, muitos ainda são considerados desaparecidos políticos.
  Alguns poucos anos mais tarde outro levante armado ocorreu. Organizado de modo silencioso, militantes se reuniram na área municipal de Piçarra do Pará, mesma região onde, até 1974, travou-se a Guerrilha do Araguaia. O novo movimento foi uma continuação do primeiro. Os moradores apoiaram o movimento organizado pelo PCdoB e contaram com a colaboração de grileiros e posseiros locais e promover uma revolta contra o Incra. Insatisfeitos com o trabalho de remarcação de lotes, eles marcharam até o acampamento dos trabalhadores do Incra para atacar pela manhã, mas dois traidores do movimento informaram a polícia, que logo se deslocou para o local e impediu o ataque. Os manifestantes foram obrigados a fugir pela mata, onde se esconderam.
  Por ser uma continuação da Guerrilha do Araguaia, este novo levante é conhecido também como Segunda Guerrilha do Araguaia. No entanto, em função da desordem, das desistências e das traições no desenvolvimento do plano de ataque, o evento é mais conhecido como Guerra dos Perdidos ou Revolta dos Perdidos. Dos quase 200 homens que se reuniram no dia 26 de outubro de 1976 para elaborar uma estratégia de ataque aos funcionários do Incra, apenas 36 se apresentaram para o combate efetivo. Surpreendidos pela polícia, que havia sido informada pelos dois traidores, foram forçados a se esconder na mata, sob muitos disparos de armas de fogo. Cessados os ataques da polícia, os sobreviventes revidaram. Mas o levante foi sufocado e vencido pelas tropas oficiais. Após o confronto, a polícia cercou os povoados vizinhos em busca de mais militantes do movimento. Porém relatórios do Serviço Nacional de Informação alegam que havia muitos policiais corruptos que retiravam famílias de suas casas à força, abusavam da violência e violentavam mulheres. A Revolta dos Perdidos se prolongou silenciosamente com opressões e algumas revoltas pontuais até o final da década de 1980.


segunda-feira, 10 de julho de 2017

A Guerrilha do Araguaia



   Nas décadas de 60 e 70, o Brasil enfrentou um período de perseguições, violência e censura, denominado Ditadura Militar. Amedrontados com o crescimento do comunismo no mundo, os militares tomaram o poder, derrubando o presidente João Goulart. A década de 60 foi marcada por um terror descomunal. Enfraquecidos, por volta de 68, os militantes, influenciados por táticas de guerra rural de Mao Tse-tung e Che Guevara, concentraram suas últimas forças no campo. Um grupo se alojou nas margens do Rio Araguaia, que abrange parte dos Estados do Pará, Maranhão e Goiás. No início da década de 70, estourava a guerrilha do Araguaia. 
   Organizada pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B) a guerrilha do Araguaia, a priori, foi um movimento de luta armada entre os comunistas e militares. Com a instauração do Ato Institucional nº 5 (AI-5), a situação nos centros urbanos se agravou. Era necessária uma nova estratégia. Desde 1960 os militantes já possuíam homens nas margens do Araguaia. Estes homens se integraram aos ribeirinhos, ensinando-lhes táticas militares. O que facilitou tal aproximação foi o repúdio contra latifundiários, seringueiros e capitães, por parte dos ribeirinhos, que eram informados pelos comunistas sobre as ligações entre esses posseiros e as forças da ditadura. Com interesses em comum, os ribeirinhos se aliaram aos comunistas, dando-lhes, em troca, comida, moradia e conhecimento sobre a área. Esse fator foi determinante no desenvolvimento da guerrilha. 
   A guerrilha contra os militantes se desenvolveu em três frentes, sendo que nas duas primeiras os comunistas saíram vencedores. Além de não conhecerem a área, os militares não tinham o prestígio da população local. Pelo contrário, eram odiados. Os comunistas se lançavam mata adentro sempre que alguma ameaça era detectada. E sem o apoio da população, o êxito militar era quase impossível. Quase, porque na terceira frente, os militares entraram no jogo. Meses antes do embate, infiltraram tropas entre os ribeirinhos e foram aprendendo sobre a área e colecionando informações sobre os militantes que ali se encontravam. Com algumas doses de crueldade, torturavam locais a fim de descobrirem mais sobre os militantes. E foi com essa “decência” que, em 1973, os comunistas foram cercados e as organizações de esquerda, derrotadas. Os militares se armaram com fuzis FAL (os comunistas possuíam espingardas), abusaram do uso de helicópteros e aviões, atearam fogo em todas as cabanas que encontraram pelo caminho, destruíram depósitos de alimentos que foram construídos nos povoados próximos, e, baseados em informações de delatores e ribeirinhos ludibriados, enfraqueceram os comunistas e os derrotaram. Venceram pelo cansaço. 
   A guerrilha do Araguaia não foi bem-sucedida, mas, no âmbito tático, pode-se dizer que foi vitoriosa. Mostrou falhas, tanto dos revolucionários quanto das tropas militares. Os militares espalhavam pela população calúnias sobre os guerrilheiros, dizendo que eram bandidos, cubanos, russos. A população, coagida, os delatava. E por parte dos guerrilheiros, a maior falha foi de subestimarem o inimigo por conta das duas primeiras frentes. 
   A imprensa só divulgou a guerrilha após seu fim. Censurada pela ditadura, não cobria os acontecimentos e muitos nem sabiam o que estava acontecendo no interior do país. Comunistas capturados eram fuzilados ou decapitados. Os militares transformaram as margens do Araguaia em um cemitério aberto.



segunda-feira, 3 de julho de 2017

A Guerrilha de Três Passos




   O golpe civil-militar de 1964 foi, evidentemente, um golpe contra o projeto trabalhista para o Brasil. No contexto de ditadura e repressão que se abateu sobre o país após o golpe, muitos militantes trabalhistas se organizaram com o intuito de resistir.Parte da historiografia brasileira (sempre militante, seja pra esquerda ou para a direita) procura colocar que movimentos guerrilheiros contra a ditadura só apareceram após o AI-5 de 1968. Há, é certo, historiadores vinculados a partidos políticos que procuram sempre apontar a experiência guerrilheira no Araguaia, por exemplo, como a “única” existente. Na verdade, antes mesmo de militantes pensarem em organizar um foco guerrilheiro no Araguaia, grupos trabalhistas, sob a inspiração de Brizola, se organizaram logo nos primeiros meses após o golpe. Foram estes trabalhistas brizolistas que organizaram a guerrilha de Três Passos (RS).
   Os objetivos da guerrilha de Três Passos eram acabar com o regime ditatorial antes mesmo dos militares “comemorarem” o primeiro aniversário do golpe – ou seja, em 31 de março de 1965 – e restabelecer a democracia no país para realizar as Reformas de Base, pregadas por Jango e Brizola. “Entre meados de 1964 e o começo de 1965, todos os planos de insurreição tinham um traço em comum: o levante, a coluna de combatentes, deveria partir da região Sul do Brasil, onde estavam as bases históricas do trabalhismo e o III Exército, responsáveis pelo sucesso da rede da Legalidade em 1961.”
   O grupo guerrilheiro de Três Passos foi liderado pelo coronel Jefferson Cardin Osório, ligado ao Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), e o sargento da Brigada Militar, Albery Vieira dos Santos. “À época do golpe de 1964, o coronel Cardim trabalhava como assessor técnico do Lóide Brasileiro em Montevidéu, e o segundo-sargento Alberi, da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, fugiu para o Uruguai. No ambiente de conspiração dos exilados no Uruguai, Cardim destacava-se porque, à revelia de muitos planos e estratégias, dizia a interlocutores que não admitia que o golpe de 1964 completasse um ano sem que houvesse qualquer reação. O trajeto escolhido para a coluna de combatentes, que subiria pelo noroeste do Rio Grande do Sul até Mato Grosso, deveu-se ao conhecimento que o sargento Alberi tinha da região, e também por ser uma área fronteiriça, que margeava a Argentina e o Paraguai, proporcionando rotas de fuga.”
   Além destas duas lideranças, também comandou o grupo o professor Valdetar Dorneles, ligado a um núcleo de “Grupo dos Onze”. Em entrevista à Rádio Legalidade, no dia 27 de março, Valdetar afirma que muitos setores da esquerda não reconhecem a guerrilha da qual participou e após a “anistia” de 1979, teve a sua recusada! Juntos, eles formaram o Movimento 26 de Março (M-26) – o nome foi escolhido devido a data prevista para o levante. Após alguns meses de planejamento, os guerrilheiros iniciaram a tomada da cidade de Três Passos. A partir dai eles iriam conclamar os nacionalistas, trabalhistas, socialistas e comunistas à derrubada do regime imposto.
   Na noite de 26 de março de 1965, esse grupo tomou o quartel da Brigada Militar, rendendo os brigadianos de plantão e se apoderando de armamentos e fardas. Em seguida, tomaram o presídio e os meios de comunicação local. “Além de deixar a cidade sem comunicação telefônica, uma vez que cortaram os fios da rede, invadiram a Rádio Difusora e obrigaram, sob a mira de uma metralhadora, os proprietários Benno Adelar e Zilá Breitenbach a colocar a emissora no ar para ler um manifesto contra a ditadura militar.” O manifesto, redigido por Cardim, falava em Forças Armadas de Libertação Nacional.
   Após a tomada de Três Passos, o grupo seguiu para Tenente Portela, onde também tomou um destacamento da polícia militar. Dali seguiram para Santa Catarina. A intenção dos guerrilheiros era chegar ao Paraná, onde Castelo Branco, primeiro presidente da ditadura, iria inaugurar a Ponte da Amizade, que ligava Brasil e Paraguai. Mas a esta altura o exército já estava sabendo do grupo guerrilheiro e uma batalha ocorreu na localidade de Leônidas Marques, no Paraná (há rumores de que havia um informante no grupo que repassava para as forças de repressão as atividades da guerrilha). Valdetar, em entrevista à Rádio Legalidade, lembra da chegada do grupo ao Paraná. Quase 50 anos após este episódio, ele diz que se o grupo tivesse chegado à Foz do Iguaçu poderia fazer com que Castelo Branco fugisse para o Paraguai, do outro lado da ponte, e desta forma o congresso deveria declara-lo “fugitivo” e assim o regime se desestabilizaria. Após esta batalha, o grupo guerrilheiro se dispersou. Aos poucos foram sendo capturados pelo exército e submetidos às mais cruéis torturas.